terça-feira, 27 de abril de 2010

Pupilo de Amon-Rá

Já fui uma pequena semente
Querendo ser grande e imponente
Regado, pude crescer livremente
Virei broto quase de repente

Sobrevivi à muitas tempestades
Senti frio, fome e também calor
Ansiava por grandes cidades
De suas brisas, sentir o sabor

Enquanto isso, fitava Amon-Rá
começava às cinco da matina
E continuava até ele descansar
E essa sempre foi minha rotina

Até que fui decepado do jardim
Me jogaram num lugar indesejado
Lá, ainda senti aroma de jasmim
Depois, abri os olhos, alarmado

Onde estou? Como vim parar aqui?
Pelo menos, pude obter respostas
Consegui ver uma sala e um guri
Onde estou? Façam suas apostas

Luzes artificiais me rodeiam
Sou um pupilo de Amon-Rá!
Será que todos me odeiam?
Assim, estou fadado a murchar

Minha cabeça cai aos poucos
Sei que eu preciso do Sol
Acho que deus só olha os loucos
Já escuto a Valsa Em Ré Menor

Por Que Não?

Ah... Dezenove anos... A melhor idade, é o que muitos dizem. Não quero nunca sair dela! Todos os olhares libidinosos, todas as mãos nervosas, todas as bocas sedentas... Ah... Adoro isso! As noites são sempre longas e nunca solitárias... Ah... ♫"Perco a voz, quero mais.. Ardente, quente como asfalto!"♪. Quero sempre mais e do melhor! Meu lema: Lassata, sed non satiata! Não sabe o que é isso? Oh... Que pena, você não serve para mim! Bom, na verdade, isso depende da sua conta bancária e da sua "boa vontade", embora nem sempre isso funcione comigo! Bom, com relação a honorários, eu nunca tinha feito questão, mas desde que eu fui ofertada pela primeira vez, pensei: "Bom, por que não? Assim, eu junto prazer aos negócios!" Pois é... Essa é minha vida: escolho por prazer ou por interesse. Se bem que se eu escolho por prazer, isso já é uma forma de interesse. Ah... Mas isso não importa, o que me importa é manter a satisfação do cliente, até porquê eu me satisfaço em tudo! Oh... Festas? Já fiz muitas, não existe nada melhor! Tantas mãos, tantas bocas, tantos seios, barrigas, pernas, costas... Ah... Estou precisando de mais uma dessas! Meus longos cabelos pretos, somados a minha pele alva e a minha miopia, despertam algo inexplicável neles! Ah... Quanto mais eles gostam, mais me envaideço, mais me banho num fogo intenso e pecaminoso. Acho que nunca vou ter do que reclamar, eles me dão tudo o que eu gosto e sei que mereço! Ah... Faço muito e faço muito bem! Pois é... Acho que nasci para isto... Oh... Não me sobra tempo livre (o que eu acho ótimo), muito pelo contrário, minha agenda está lotada pelos próximos dois meses. Tá certo que um dia ou outro é “dia de branco”, pois nem toda rosa é rosa, e nem todo santo é do pau oco! Oh... Dez da noite é hora do pecado! Quem sabe quantas famílias já destruí, quantos já caíram aos meus pés e quantas já morreram de inveja? Nem deus ou o diabo sabem! Também não quero saber, quero é aproveitar a vida. É como eu costumo dizer: Carpe diem! Ah... Aproveito a vida e me aproveito de todos que também se aproveitam de mim! Oh... Isso, para a mim é o sentido de viver: amar quem quer que seja por algumas horas e com a maior intensidade possível. Detalhe: meu rostinho de menina meiga e santinha, não desperta a desconfiança de ninguém. Sou meiga, simples, de uma ternura inigualável e dissimulada! Dissimulada sim, pois consigo ser outra pessoa durante o dia e eu mesma durante a noite! Ah... Dentro de quatro paredes, o santo revela sua verdadeira face: a face de um demônio. Oh... Demônio insaciável, que suga até as entranhas de sua vítima! Oh... A noite está no fim e bem que eu queria mais, porém amanhã de manhã, tenho aula. Estudo biblioteconomia... Eu sei que isso é um clichê, mas ainda é o melhor disfarce! "Ahhhhh..." Esse é o último gemido de amor, que morre na minha garganta... Sinceramente, eu amo quando isso acontece! "Pronto, minha querida. O dinheiro está aqui. Sinta-se à vontade para tomar banho antes de ir embora... Ah! Você foi ótima! Semana que vem a gente repete!". É por essas e outras que eu amo o meu "trabalho"!

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Tripalium

Mais um dia se inicia e ainda é noite... Um longa jornada tenho pela frente. Quatro horas de sono é o que separa ontem de hoje. Me banho, me visto, me mascaro. Estou pronta pra começar minha labuta, meu pau-de-arara. Caminho com muitas pessoas, durante muito tempo para chegar até a minha senzala climatizada. Bom dia ao feitor e me ponho logo em posição para os açoites. Meu primeiro carrasco chega. Vou até ele com um sorriso de plástico, me esforçando para parecer real. Ele escolhe a mercadoria, depois de meia hora escolhendo (e olhe que é apenas algo para proteger seus pés), e eu vou buscá-la no estoque. Meu dono temporário tem um cheiro horrível. Nem todos são assim, mas eu tenho que continuar mostrando satisfação. Como uma indiana que lava os pés do marido, estou eu, agachada em sua frente, e ele me olha com olhos famintos... Tenho que aguentar isso também e o pior: fingir que gosto. Depois de toda a encenação (e humilhação) ele se satisfaz, compra, me dá seu telefone (que logo após ele sair, terá o lixeiro como destino) e vai embora. Acho que sou boa atriz, pois a maioria deles ficam contentes e acabam retornando. Não demora e chega outro, e outro, e outro, e outro... E tudo se repete. Igualzinho ao anterior... Sempre a mesma coisa. Mas na hora do almoço, até escravos descansam... O que complica é essa comida cara e oleosa. Não tem nada sudável aqui. Mas fazer o quê? Deve ser o meu castigo. Depios de uma refeição rápida (tenho a liberdade de até uma hora para me alimentar e descansar, mas volto antes, senão o capitão-do-mato vem atrás!) vou ao banheiro... Queria um pouco de vida no meu rosto, mas não posso borrar minha máscara de alegria. Não posso deixar a realidade transparecer ou... É melhor nem pensar nisso. Prefiro ficar quieta e fazer o meu papel de mulher-objeto. O meu nem é tão ruim assim, só tenho que aguentar uns idiotas que aparecem e fingir que gosto! Se você pensar bem, tem coisa muito pior acontecendo por aí em relação a esse assunto. O sol se põe e eu mal o vi. As luzes artificiais é que fazem parte da minha vida. Só quando o feitor nos libera é que posso ver a luz do sol, mesmo assim ela só aparece refletida na lua. Todo o meu corpo dói e mal consigo me pôr de pé. Ainda tem todo o longo caminho de volta. Em casa, despejo água em minha cabeça para esfriar os nervos e relaxar meu corpo. Como qualquer coisa, para enganar a fome (que é um dos meus algozes durante todo o dia) e vou para o meu quarto. Deito-me como um bebê e durmo como pedra... Mas quatro horas passam mutio rápido...

terça-feira, 20 de abril de 2010

Hoje Eu Quero Ficar Sóbrio

De tão ébrio fala meu coração:
"Pareces um porco, seu vadio!
Vais morrer em terreno baldio!
Quanta ignominiosa depressão!"

Mas hoje eu senti um arrepio
Quando vi um sorriso chegando
Um doce perfume se aproximando
E me explodindo sem um pavio

De tão ébrio, eu vou falando:
"Como pode existir essa beleza?
Mulher assim, só vi na realeza
É digna de passar levitando

Do coração, escuto com clareza:
"Ora, mas o que acontece aqui?
Será que estou escutando a ti?
Como foi ocorrer essa tristeza?"

Como podes me fazer um opróbrio?
Dizendo que isso é uma tristeza!?
Qual é a sua magnânima natureza?
Hoje não... hoje eu quero ficar sóbrio!

segunda-feira, 5 de abril de 2010

O Vinho E Eu

Um copo de vinho
Quando se encontra cheio
Bebo-o sem receio